O quilo da carne de rã custa cerca de R$ 15,00 no atacado e varia de R$ 28,00 a R$ 32,00 nos supermercados em São Paulo. O valor é de encher os olhos de quem está pensando em se dedicar à ranicultura. Mas antes de sonhar com lucros exorbitantes, é preciso pensar nos custos da criação de rã. Em Registro, por exemplo, os poucos ranicultores acabaram desistindo da atividade no decorrer dos últimos cinco anos. Segundo o técnico da Casa da Agricultura, Luis Antônio Batista, o que levou os criadores a abandonar o negócio foi justamente a dificuldade financeira. "Na ranicultura é preciso conhecimento e tecnologia adequada, além disso, aqui na região não há mercado para a rã, apenas em São Paulo, mas lá o produto só é aceito se houver quantidade razoável", explica Batista.
Apesar de não existir um levantamento no Vale do Ribeira, não deve passar de cinco o número de ranários na Região. Amilcar Ghelardi Neto pode não ser o maior criador de rã do Vale, mas tem com certeza o projeto mais ousado: a previsão é de 3 mil metros quadrados de área construída, com capacidade para produzir 1.500 quilos de carne de rã por mês. Por enquanto seu ranário, localizado no Bairro Rabelo em Juquiá, possui 376 metros quadrados e aproximadamente 10 mil rãs. Ao lado, já está em fase de construção outra "estufa" com capacidade para 15.600 anfíbios.
Amilcar é de São Paulo e, depois de sentir na pele os problemas da violência na Capital, resolveu se dedicar ao ranário abandonado pelo irmão em Juquiá. Há dois anos no Vale, ele só pensa em investir em sua propriedade de 10 alqueires onde, além de criar rãs, também planta arroz e faz farinha de mandioca. A ranicultura, segundo Amilcar, ainda não deu lucro. Os gastos com ração chegam a R$ 700,00 por mês, sem contar os salários de dois funcionários e todos os produtos necessários à manutenção do ranário.
Atualmente, Amilcar vende rã para São Paulo, Jundiaí, Bragança Paulista, Santos e também para Ilha Comprida. Também está viabilizando a implantação de um abatedouro. Viva, a rã custa R$ 5,00 o quilo, mas apenas 50% do peso é de carne. O couro também pode ser utilizado na confecção de roupas. Macio como uma pelica, o couro da rã é mais resistente - por este motivo é usado na fabricação de luvas para os pilotos da Fórmula 1.
Cuidados - De acordo com Amilcar, muitos ranicultores de Juquiá desistiram da atividade depois de ver suas criações dizimadas por uma doença que causa infecção na pele do animal. O problema é ocasionado devido à má qualidade da água onde as rãs permanecem. "Como utilizo água que vem direto da nascente em minha propriedade, não há perigo de contaminação", explica o ranicultor. Mesmo assim, Amilcar encontrou uma maneira de livrar sua criação da doença: junto à ração, ele mistura NF-180 e também lava as baias com Permaganato de Potássio, deixando que o animal mergulhe na água misturada a este produto. Duas vezes por semana, as baias são lavadas com cloro.
A cada 15 dias é feita uma seleção, onde as rãs são separadas por tamanho. Outro grande cuidado, e um dos principais inclusive, é não deixar a rã estressada. Como elas são muito sensíveis, qualquer barulho estranho ou movimento brusco pode abalar seu sistema nervoso. "Elas têm uma espécie de ataque e se estiverem na água, morrem afogadas", avisa Amilcar. Por isso o local para o criadouro deve ser longe do barulho.
A alimentação das rãs é composta por ração de peixe e larvas de mosca. É que esses anfíbios só comem aquilo que se mexe, por isso as larvas precisam estar junto da ração. Amilcar possui seu próprio moscário. Isto mesmo: as moscas são confinadas e tratadas com água e leite em pó. Da "gaiola" as larvas são diretamente servidas às rãs.
Reprodução - A espécie utilizada em criatórios é a rã-touro, por apresentar maiores vantagens, como alta precocidade, prolificidade e rusticidade. Amilcar deixa apenas seis casais para a reprodução, já que cada fêmea produz de 5 a 7 mil ovos por postura. Cerca de 30% acaba se perdendo antes de atingir a idade apta para o abatimento, por volta dos sete meses. Uma curiosidade: o "canto" que ouvimos nas noites quentes de verão é feito pela rã macho para atrair a fêmea no acasalamento.
Segundo Amilcar, as rãs são abatidas quando atingem 400 gramas aproximadamente. A metamorfose do girino (até virar rã) dura três meses. Com mais quatro meses, as rãs estão aptas para o abate.
Sabor saudável - Para quem ainda não conhece carne de rã, Amilcar revela que a textura é muito parecida com a carne de frango, só que mais macia. Já o sabor lembra o do peixe. Além de gostosa, a carne de rã é bastante nutritiva e saudável. Cada 100 gramas do produto possui 69 calorias, 0,45% de gordura, 18,80% de proteínas, 1,25% de minerais e 79,50% de água. Portanto, um alimento de alto valor protéico, poucas calorias e fácil digestão.
Esposa de Amilcar, Marlene Lucon Ghelardi pesquisa sobre a carne de rã desde que passaram a se dedicar à ranicultura. Nos últimos dois anos, ela já copilou cerca de 40 receitas que têm como base a rã. Marlene já pensa em lançar um livro com as receitas. Atualmente, segundo ela, a rã é servida mais à milanesa, como recheio de pastéis e tortas, em sopas e "strogonoff". "Uma porção à milanesa, com apenas três rãs, custa R$ 24,00 em Santos", lembra Marlene. Além de gostoso, altamente rentável.
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